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19 de maio de 2012
COLUNAS

Milton de Britto

VOU-ME EMBORA PRO PASSADO

30 ABR 2012 - 11:45h

Manuel Bandeira, um dos maiores poetas da língua portuguesa, estrutura um poema, cujo tema é sair deste presente que nos esmaga com costumes diversos dos que conhecemos no passado, e, portanto, conflitante, que vai do amoral ao imoral. Para tanto, invoca Pasárgada.

Pasárgada era uma cidade da antiga Pérsia e é atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, situado 87 km a nordeste de Persépolis.
No poema, Bandeira descreve uma terra paradisíaca e mágica, onde tudo é possível.  Diz:

“Vou-me embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Lá tenho a mulher que eu quero... Onde a existência é uma aventura, tem tudo. É outra civilização... Aqui sou feliz! Quando você estiver triste, vem embora para ‘Pasárgada’, também”.

Parodiando Manuel Bandeira, Jessier Quirino, poeta nordestino, da melhor qualidade, escreve: “Vou-me embora pro passado/ lá sou amigo do rei/ Lá tem coisas daqui, ó!/ Roy Rogers, Buck Jones/ Rock Lane, Dóris Day/ Vou-me embora pro passado...”.
Em seu poema demonstra também a insatisfação de se viver no presente, cheio de conflitos.
Eu, que de há muito não me conformo com os reveses deste presente que aí está, mormente, em nossa cidade, onde muitos insistem com o banditismo e o desrespeito aos princípios morais, com valores inversos, onde vivemos enjaulados e protegidos com cercas elétricas, tenho que parodiar.
 

- Vou-me embora pro passado. Lá sou amigo de todos e a simplicidade impera, irmanada com o respeito humano. Lá se brincam de cabra cega, chicotinho queimado, boca de forno, gude, peão e arraia, sem nenhuma discussão. Lá todos são irmãos. Quando quiser o café da manhã, basta ir à Padaria de seu Abelardo, pai de Toinho e Zé Pão, ou mesmo comer o cuscuz de milho quente, regado com bagaço e leite de coco, obra de Dona Pombinha. Tem a Padaria da Fé, com suas broas, queijadas, pão cacetinho, bolacha fofa e torrada, tudo bem quentinho para se comer com manteiga de boa qualidade. Lá, tem o Cinema Santana, para se assistir Flash Gordon no Planeta Ming, O Gordo e o Magro, Os Três Patetas e Carlito; tem o Cinema Iris com seus filmes de Caubói às segundas-feiras, com a turma gritando e torcendo pelo artista, com o seriado de Roy Rogers, o Zorro e Buck Jones, que ao sair de cena, fica a meninada a brincar de “come on, boy”.

Nos recreios, nos campos e nas várzeas, o jogo de gude, de bola e arraias empinadas com linhas enceradas. No passado tem Lucinha, tem Belinha, tem Maria de cabelo curto, mas, feminina a toda prosa dando “bola” pro menino que estrutura uma poesia em sua homenagem – “Maria frô brejeira, frô sodade, frô Maria, se eu te pego nem sei Maria que diabo é q’eu fazia...”. Lá tem seu Lôlô, seu Tito e seu Arnoud, homens de vergonha na cara, exemplo a seguir. Tem as casas Pernambucanas com seus fustões, brins, chapéu Ramezone, Chitão e chitãozinho, pras comadres fazerem as roupas da molecada, tem também tergal, casimira, linho e seda pura. Lá no passado tem o Feira Tênis Clube, a Euterpe, o Cajueiro, com seus bailes encantados, ao som de Valdir Calmon, Maestro Brito, aquele da Rua de Aurora, da Praça Dois de Julho, com a guitarra de Gelivar e as maracas de Valentim, abrilhantando as matinês de namoros firmes, de moças e rapazes bem comportados, bem vestidos, com seus cigarros Continental e Astória, dos chicletes mastigados para o beijo colado. Aos domingos passeio de bicicleta Hercules ou Raling, alugada no Beco do França, de Lambreta e Monareta, para os mais abastados.

Tem Saturnino embriagado cantando o “Ébrio” e a “Porta Aberta”, lembrando Vicente Celestino; tem Maria Orenhinha e Seca Fonte, doidos mansos, circulando pelas ruas, entremeando com os aguadeiros e os tabuleiros de cocada, alferes, puxinha, quebra-queixo e algodão doce, saídos do Beco de Abilio Ribeiro. Lá, tem serenatas nas madrugadas, ao som de Chão de Estrêlas, Malandrinha, Abre a Janela e Boa Noite Amor, para as conquista amorosas e para os iniciados na arte do Kamasutra – o 125, Oasis, Casa de Lindaura e

Maria do Rosário. Vou-me embora pro passado, que lá eu sou feliz, não preciso viver enjaulado, desarmado a enfrentar bandidos de todos os lados e calibres, numa sociedade apodrecida, cheia de corrupção, onde são poucas as famílias honestas, cercadas de ladrão. Lá eu vou viver protegido pela moralidade e o respeito ao próximo, sem ter medo da traição. Vou-me embora pro passado.

Feira, 15 de abril 2012.


 

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