• A guerra de Troia no mercado de afetos

A guerra de Troia no mercado de afetos

23 de maio de 2017 \\ Artigo Daniella Sinotti

Há poucas semanas, uma jovem divulgou um experimento de desventura realizado em um conhecido site de paquera. Em seu perfil, ela inseriu uma foto com o filho e reforçou seu papel de mãe. O resultado prático do teste foi desastroso do ponto de vista afetivo, uma enxurrada de grosserias, misoginia e falta de aceitação, critérios que regem esse mercado virtual de afetos. O desalento dessa mulher me fez pensar nas queixas que ouço diariamente e no drama da escolha no amor, temas que remetem ao mito do julgamento de Páris, prenúncio da guerra de Troia.
O julgamento de Páris é um mito grego que conta a história de um príncipe a quem Zeus ordenou que fosse o juiz para um concurso no qual seria escolhida a mais bela deusa, a quem seria dada uma maçã dourada. As concorrentes foram Hera, Afrodite e Atena. Elas trazem elementos dos arquétipos femininos da expansão nos relacionamentos que se manifestam quando examinamos os detalhes do comportamento que cada mulher estabelece diante de situações do cotidiano. Afrodite representa a beleza e sedução, Atena é a mulher independente e moderna e Hera rege o casamento e a moralidade social.
O príncipe Páris inicialmente tentou se esquivar da ordem de Zeus, sugerindo que a maçã fosse dividida em três partes, o que lhe foi negado. Ele seguiu então o critério da emoção e do desejo, e não da necessidade, escolhendo a deusa Afrodite. Ela havia oferecido a Páris, como prêmio, o cálice do amor e a mulher mortal mais bonita como esposa, no caso, Helena, que já era casada com o general grego Menelau. A partir disso seria iniciada a guerra de Troia. O critério da escolha de Páris está vivo no inconsciente masculino. Deusas ligadas à maternidade não entraram nessa disputa.
A escolha de Páris, a realidade do mercado de afeto dos sites de paquera e as consequências das escolhas amorosas tendo como base a superficialidade nos deixam algumas reflexões. A escolha amorosa nem sempre leva em conta nossos anseios mais profundos. A essência da natureza humana nessa busca é quase sempre motivada pelo desejo pueril, quando a emoção fala mais que alto que a razão. 
Por fim, deixo uma citação do psicanalista alemão Bert Hellinger, criador da psicoterapia sistêmica, sobre a simetria oculta do amor. “O amor segue a ordem oculta da Grande Alma. A razão superior e o significado profundo de nossas necessidades físicas instintivas superam e controlam a racionalidade e a vontade”.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e jornalista.
E-mail: dsinotti@gmail,com