•  Héstia e o sonho da volta pra casa

Héstia e o sonho da volta pra casa

20 de junho de 2017 \\ Artigo Daniella Sinotti


Uma jovem estava tendo pesadelos repetidos. Era sempre a mesma coisa, ela tentava voltar pra casa, mas não conseguia. Acordava sempre angustiada e cansada. Algo importante sobre os sonhos é que eles revelam conteúdos que ajudam no autoconhecimento. Carl Jung foi um dos estudiosos que abriu caminho para o entendimento do campo onírico, sobretudo seus reflexos emocionais e também arquetípicos, carregados de significações.

Para entender os motivos que podiam estar causando os pesadelos, a jovem examinou sua rotina de vida. Detalhes de um cotidiano conturbado, com um trabalho bastante exaustivo, metas de vendas que quase nunca se cumpriam e uma vida social que incluía noitadas e festas com amigos em sua casa. Um verdadeiro redemoinho de ocupações, num lar que funcionava como misto de vestiário e pousada, quase sempre tomado pela desorganização e limpeza precária.

O caos continuava se instalando na rotina da jovem e os pesadelos se repetiam, até que outro elemento veio à tona em mais um sonho. Uma senhora vestida de branco acendeu um fogão de lenha no centro da casa da jovem. Aquela imagem deixou uma indagação. Que mensagem trazia a senhora do fogo? Algo estranho para uma jovem que costumava se alimentar em fast foods. As chamas do fogão de sua casa estavam quase sempre apagadas, quando muito algo era aquecido no forno micro-ondas.

A resposta para esse sonho pode ter vindo do panteão dos deuses gregos. Héstia é uma antiga deusa, invocada ao acender o fogo, reverenciada por sua enorme importância para a civilização. À deusa eram erguidos altares no centro dos principais espaços públicos e privados, em cada casa, em praças e nas escolas. Ela é a própria representação alquímica da transformação dos ingredientes em alimentos, lembrança da chama da vida que pulsa. Nosso papel nesse mundo não precisa ser somente o de cumprir uma rotina exterior. Há quem diga que a vida é pagar boletos e tentar emagrecer. Discordo.

Entrar em contato com o arquétipo da deusa Héstia pode ser um convite para a intimidade e o conforto do lar num sentido pleno, num ritual diário de restabelecer a energia do corpo e da alma. Uma mensagem de entendimento das necessidades individuais, de buscar forças internas para enfrentar o poder do fogo da realidade do dia a dia e dos problemas imprevisíveis. É estabelecer um porto seguro que possa servir de aconchego.

Depois de estudar mais sobre a deusa e de rever sua rotina de organização material e mental, a jovem pôde experimentar um bem-estar que há muito não sentia. Instituiu uma agenda diária mínima de afazeres domésticos e de exercícios de respiração e meditação e matriculou-se em aulas de dança para expurgar o descontentamento com o corpo e a necessidade de estar com as amigas. Desse modo, restabeleceu sua conexão com ela mesma.

Sobre os sonhos e a obra de Jung, Nise da Silveira, no livro ‘Jung: Vida e Obra’, explica que o sonho é uma representação do inconsciente, uma coisa viva, que exprime as coisas tal como são, na linguagem arcaica das imagens e dos símbolos. “Do mesmo modo que o corpo reage de maneira adequada a um ferimento, uma infecção ou a um tipo de vida anormal, assim também as defesas psíquicas reagem por meio de defesas apropriados, a alterações perigosamente perturbadoras”.


Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.